Marcelo Coelho

Cultura e crítica

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O Mercado de Notícias

Por Marcelo Coelho
21/08/14 16:55

Sou naturalmente suspeito para comentar “O Mercado de Notícias”, documentário de Jorge Furtado sobre os problemas da imprensa brasileira.
Fiquei bastante embaraçado com uma das principais “descobertas” do filme: uma matéria escandalosamente errada que saiu na “Folha” há anos, apontando a existência de um quadro de Picasso na parede de um corredor burocrático do INSS.
Não era um Picasso autêntico, evidentemente, e a ideia da notícia –mostrar o descaso do poder público com o próprio patrimônio—caía por terra.
Não me lembro de ter visto a reportagem, que saiu com foto e tudo. O suposto quadro de Picasso era a reprodução de uma obra razoavelmente famosa, de um museu em Nova York, e quero imaginar que eu teria reconhecido o engano. Só agora, passados anos da notícia, saiu na “Folha” um “erramos” sobre o caso.
É um dos momentos mais interessantes do filme, ainda que incômodos para quem é da Folha.
Mas “O Mercado de Notícias” (veja horários no Guia da Folha) não se dedica muito ao divertido recenseamento dos deslizes jornalísticos. O principal do filme –e aqui surge um segundo motivo para minha suspeição ao comentá-lo—está numa série de entrevistas com jornalistas, seja os da grande imprensa (Fernando Rodrigues, Renata Lo Prete, Cristiana Lôbo), seja os que a criticam (Mino Carta, Luis Nassif, Raimundo Pereira).
Para quem é jornalista, muitos dos temas abordados nessas entrevistas trazem pouca novidade. “Existe imparcialidade?” “Existe liberdade de expressão nos grandes jornais?” “Os interesses econômicos prevalecem sobre a verdade?” “O que é verdade?”
Há opiniões radicais, e outras menos, sobre isso. Talvez para o público mais amplo seja interessante ouvir tantos jornalistas expondo seus pontos de vista. De minha parte, acho que tudo termina abstrato demais, com frases que tendem à exposição de princípios ou de julgamentos já consolidados.
Talvez sabendo desse risco, Jorge Furtado entremeia os depoimentos com cenas da montagem de uma peça, intitulada justamente “O Mercado de Notícias”, escrita por Ben Jonson (1572-1637). É outra descoberta muito boa do diretor –além do caso Picasso. A comédia mostra um jovem perdulário que se envolve na empreitada de comprar e vender “notícias”, (“novidades”?) numa época anterior à da consolidação dos jornais tais como os entendemos hoje.
Vendo a peça e pensando nos jornais de hoje, pode-se sempre traçar aquele gênero de paralelos que leva uma pessoa a dizer: “puxa, já naquela época, hein!” Mas a aproximação não é das mais esclarecedoras, e novamente escapamos do concreto, do real, para um plano de julgamentos mais ou menos fáceis.
Como a perspectiva adotada é sempre a da generalidade, é um alívio quando se vê Luis Nassif, por exemplo, apontar um caso específico de miopia jornalística. Ele se refere à excessiva atenção dos jornais com respeito às oscilações do mercado financeiro, e de que modo se deu pouca importância a uma queda violentíssima na venda de máquinas agrícolas, em 2008 se não me engano.
Mais exemplos como esse enriqueceriam o filme de Furtado.
Sem dúvida, o grande exemplo, que “O Mercado de Notícias” recalcou, não é o das máquinas agrícolas. Metade dos entrevistados, mais ou menos, considera que os jornais perseguem o governo do PT, e teria longas considerações a fazer sobre o caso do mensalão.
Imagino que um filme sobre “os problemas da imprensa” sequer teria sido feito nos tempos de Fernando Henrique, quando choviam denúncias contra os tucanos.
A vontade implícita deste documentário é colocar em questão uma imprensa que foi duríssima contra Lula. Por que não falar disso de uma vez? Curiosamente, o tema do mensalão foi recalcado, abafado, suprimido (auto-censurado?) em “O Mercado de Notícias”. Por esse cuidado do diretor, que talvez tenha querido parecer “apartidário e independente”, o filme me pareceu ficar girando na periferia de seu assunto real.

omercado

Mulheres

Por Folha
20/08/14 02:00

A viúva de Eduardo Campos, Renata, recebeu condolências do senador petista Lindbergh Farias, candidato ao governo do Rio de Janeiro. Diz a Folha que ela vestia uma blusa com estampa floral —e que respondeu a Lindbergh sem chorar.

“Esse negócio de tristeza, aqui, não combina”, afirmou. “Aqui é força, alegria e coragem.” Tem sido esta, segundo se informa, a atitude de Renata Campos ao longo destes dias.

Na Flip deste ano, assisti a uma mesa sobre os 50 anos do golpe militar, da qual participava Marcelo Rubens Paiva. Ele começou lendo um artigo de Antônio Callado sobre sua mãe, Eunice.

O autor de “Quarup” lembrava ter encontrado Eunice em Búzios, nadando de biquíni, bronzeada e magra. O marido dela, Rubens Paiva, estava preso. O ano era 1971.

Eunice estava animada, depois de ter passado ela própria um tempo na prisão. Recebera informações de que Rubens Paiva estava bem e seria libertado nos dias seguintes. Não era verdade. Àquela altura, seu marido já estava morto, não tendo resistido às sessões de tortura no DOI-Codi.

Marcelo Rubens Paiva leu o artigo de Callado com muita dificuldade, parando para chorar; solidária, a plateia o aplaudia longamente. Ele pediu desculpas, mencionando o fato de estar agora com um filho de poucos meses —o que mudava a sua perspectiva diante da tragédia.

Pediu desculpas, também, porque sua mãe fizera recomendações enfáticas a toda a família. Ela e os filhos nunca seriam fotografados com lágrimas nos olhos.

Sorrir sempre e demonstrar força pessoal seriam a melhor resposta, dizia Eunice, aos assassinos de Rubens Paiva. “Nossa família não será fraca, e não será vencida.”

Marcelo deu um sorriso de autoironia, como a dizer “e olhem para mim agora, chorando…”, mas continuou sua participação no debate, com a notável informalidade que o caracteriza.

Não apenas Rubens Paiva estava longe de ser um “comunista”, como a direita gostava e ainda gosta de dizer, mas sua mãe não passava de uma “dondoca”. Jogava vôlei na praia com a Marieta Severo, conta o filho. Depois do assassinato, Eunice pôs-se a pedir informações, a procurar o corpo do marido. Envolveu-se com a causa indígena e, naturalmente, com a luta pela redemocratização.

Marcelo tirou desse relato a conclusão surpreendente. “Não foi meu pai quem lutou contra a ditadura”, disse ele.

Pelo menos a seus próprios olhos, os de um menino que estava com onze anos na época do desaparecimento do pai, quem lutara de fato tinha sido a sua mãe.

O que impressiona, no caso de Eunice ou de Renata, viúva de Eduardo Campos, é essa disposição para falar de alegria —ou, ao menos, para não chorar.

Talvez se tenha tornado mais comum entre as mulheres uma atitude que, em tempos antigos, correspondia apenas a outro sexo.

Refiro-me à ideia de “homem não chora”. Ao contrário, hoje cai bem certa sentimentalidade no sexo masculino. Cai melhor ainda, entretanto, a capacidade de uma mulher para o enfrentamento e a resistência.

O clichê da “viúva inconsolável” vai sendo esquecido. Que o diga, aliás, a própria Marina Silva. Tomou para si o legado e as lutas de Chico Mendes, líder ambientalista assassinado em 1988; agora, sem ser exatamente uma “viúva” política de Eduardo Campos, vem a substituí-lo com a própria força renovada pelo imprevisto histórico.

Cabe falar ainda de outra mulher, a própria Dilma Rousseff. Goste-se ou não de seu governo e de sua pessoa, uma circunstância merece ser colocada, no meu modo de ver, acima de qualquer outra.

Refiro-me ao fato, que por diversos motivos não se explora nem se menciona suficientemente no confronto político, de ela ter sido torturada durante o regime militar. Sempre penso que, se isso tivesse acontecido comigo, eu seria incapaz de superar a experiência.

Eis que vemos Dilma priorizar, contudo, sua estratégia política, e os projetos de seu partido, sem tomar em termos pessoais o entusiasmo com que muitos de seus aliados (especialmente o ministro Edison Lobão) defenderam o que havia de pior na ditadura.

Força pessoal das mulheres, sem dúvida; força da política, também. Não conhecemos melhor forma de superar uma perda do que pensar no futuro, tentando submetê-lo ao nosso poder. Candidatos, por definição, dedicam-se a coisas desse tipo.

Tragédias políticas

Por Marcelo Coelho
17/08/14 12:49

(artigo publicado na “Folha” de hoje)
Lembrar de carreiras políticas atingidas pela morte repentina, como a de Eduardo Campos, é tarefa relativamente fácil: logo vêm à mente os exemplos de Tancredo Neves e Getúlio Vargas –para não falar dos acidentes com Juscelino Kubitschek e Castello Branco e dos casos médicos de Carlos Lacerda, Jango ou Costa e Silva.
Sim. Mas com todo o respeito que se possa ter pela figura de Eduardo Campos, a comparação parece muito exagerada. O candidato do PSB não era o favorito nas pesquisas, e sua representatividade política, pelo menos em São Paulo, ainda era coisa a ser construída.
A possibilidade de que Campos viesse a empolgar a classe média e os empresários paulistas se baseava no fato de que, pela primeira vez, a oposição tucana tinha um candidato nascido “fora do ninho”.
Esgotados os cartuchos de Serra, de Alckmin e de Fernando Henrique, o mineiro Aécio Neves deixou o eleitorado antipetista de São Paulo órfão de um candidato “natural”.
Por isso, Eduardo Campos apostava (ou “era apostado”) numa proximidade com o poder econômico paulista que poucos políticos fora do Sudeste puderam alcançar. Havia muito a ser trabalhado, contudo, para que esse projeto se consolidasse até outubro.
O maior assemelhado de Campos, dessa ótica, não seria nenhuma dessas grandes lideranças desaparecidas tragicamente, mas outro ex-governador nordestino de olhos azuis: o tucano cearense Tasso Jereissati. Que se contenta, atualmente, em ser candidato a senador por seu Estado, numa coligação monstro que tem Eunício de Oliveira (PMDB) disputando o governo.
As comparações iniciais com Tancredo e Getúlio, motivadas sem dúvida pela emoção do choque e pela simpatia que Campos despertava, vão assim se atenuando. Os casos que surgiram imediatamente à memória se revelam menos pertinentes. Para dimensionar o caso de Eduardo Campos, temos de buscar nos arquivos –o que não deixa de ser triste— tragédias políticas um bocado obscuras.
Foi lembrado, assim, o acidente de helicóptero com Clériston Andrade, candidato ao governo da Bahia em 1982, ou o desastre aéreo que matou Salgado Filho, postulante gaúcho nas eleições estaduais de 1950.
Mas aí já estamos escavando muito fundo nas camadas arqueológicas da história regional.
Podemos ir mais longe, contudo. E aí as coisas ficam especialmente cruéis para todos os envolvidos na comparação.
É estranho que um nome de outro político muito promissor, que também morreu de repente, não seja lembrado de imediato quando se analisa o destino de Eduardo Campos. Estou pensando em Luiz Eduardo Magalhães, do DEM, vitimado por um enfarte aos 43 anos.
Não era candidato à presidência da República –aspirava ainda ao governo baiano. Mas tinha sido presidente da Câmara dos Deputados e surgia como um nome mágico, capaz de garantir uma alternância entre PSDB e DEM no Palácio do Planalto. Quando morreu, em 1998, muitos comentários aludiam a seu papel insubstituível como articulador no governo Fernando Henrique.
Tornou-se, como Salgado Filho em Porto Alegre, nome de um aeroporto (que Deus nos livre desse destino)—e de um município na Bahia.
Indo mais para o passado, o PTB de João Goulart depositava muitas esperanças no nome de um jovem político fluminense, Roberto Silveira. Dizia-se que era um grande talento. Morreu num acidente de helicóptero em 1961, deixando seu legado político a familiares de expressão local.
Outro acidente de helicóptero matou Ulysses Guimarães e Severo Gomes em 1992. Ambos já tinham cumprido missões históricas na redemocratização do país.
Não foram lembrados agora –e nem nome de município, pelo que eu sei, terminaram virando. A política, por mais cruel que seja dizer isso agora, é sobretudo a arte da sobrevivência.

Olhos azuis

Por Marcelo Coelho
16/08/14 13:15

Apareceu na televisão, e depois no jornal, o depoimento de um cidadão que estava perto do acidente de Eduardo Campos. O homem, com lágrimas nos olhos, dizia ter visto uma bola de fogo –a queda do jatinho –os corpos espalhados no chão. Aproximou-se de um corpo. Abriu as pálpebras do morto: os olhos eram azuis. “Era o meu candidato…”, disse para as câmeras, forçando o choro.
O problema é que a identificação dos corpos não poderá ser feita nem mesmo pelo exame das arcadas dentárias, segundo a perícia.
A “testemunha” simplesmente delirava.
Qual será o impulso de alguém para mentir sem levar nenhuma vantagem com isso? Queria só aparecer na televisão? Não acho muito plausível. Talvez a vontade não seja exatamente de mentir; é a vontade de ver se o outro acredita. O homem buscava, no repórter que o entrevistou, um olhar que expressasse, digamos, uma “ausência de desconfiança”.
“Acreditam em mim!” Esse é o maior prazer do mentiroso; procura, no fundo, acolhimento.
Não por acaso fixou-se no detalhe dos olhos azuis. Nada disso é quantificável, acho, mas o fato de Eduardo Campos ter olhos azuis também contribuiu para sua popularidade. Talvez para nós, brasileiros, nos pareçam mais “verdadeiros”, mais “sinceros” os olhos claros.
O cidadão que “testemunhou” o acidente queria que acreditassem nele –nada melhor do que olhos azuis para dar veracidade a seu depoimento.

Nicolau Sevcenko

Por Marcelo Coelho
14/08/14 19:00

Quando a morte de alguém importante aparece no jornal, já estamos mais ou menos preparados para a leitura: a notícia já circulou, diminuindo o choque da letra impressa.
Meu susto, ao ler o jornal de hoje, foi dar com outra morte, ocupando página inteira do “Cotidiano”: a do historiador Nicolau Sevcenko, aos 61 anos. Conheci-o na “Folha”, em meados da década de 80; tinha sido convidado para escrever editoriais no jornal, o que fez com brilho no mesmo dia –mas não tinha disponibilidade, naquela época, para um compromisso regular na atividade.
Era muito magrinho, jovem, simpático e esquisito. Depois ele me contou que, na infância, fora forçado a escrever com a mão direita. Sendo um caso extremo de canhotice, isso viria a atrapalhá-lo bastante. Era comum que gastasse várias folhas de cheque antes de preencher uma corretamente. Trocava letras e números o tempo todo, e na própria postura física e na expressão facial trazia as consequências dessa reorientação neurológica forçada.
Parecia, ao mesmo tempo, absolutamente confortável no mundo. Chegou à Folha com um paletó preto justo, camisa acho que xadrez, e uma gravatinha moderníssima, não sei se de couro ou de borracha; na lapela, uma estrela vermelha do PT.
Era o tempo do “PT light” e charmoso, atraindo pessoas com simpatias libertárias e visceralmente anti-estalinistas. Era também o tempo em que a intelectualidade da USP ia ficando mais “pop” e roqueira. Sevcenko era um historiador acadêmico respeitado, mas seu figurino e atitude nada mais tinham a ver com o jeito mais enfarruscado, quase de ex-militante argentino, que era (e talvez ainda seja) característico da área de humanas da USP.
Nesse mesmo espírito dos anos 80, Sevcenko se destacou por eleger a história cultural, especialmente o campo da modernidade urbana, como objeto de estudos. Tomava-se um fartão (pelo menos era o meu sentimento na época) de estudos coloniais e discussões sobre economia sucro-cafeeira. “Orfeu Extático na Metrópole” (um livro que critiquei na época, e não mudo de opinião) tinha o mérito de destacar assuntos menos austeros, como a paixão pelo futebol nos anos 20…
História do cotidiano, história das mentalidades. Walter Benjamin. Maio de 68. Desse caldo iam surgindo, pela editora Brasiliense, os livros de Sevcenko, de Olgária Matos, de Nelson Brissac Peixoto –e, naturalmente, já pela Companhia das Letras, o de Marshall Berman. Isso, mais as coleções “Encanto Radical” e “Cantadas Literárias” (Marcelo Rubens Paiva, Leminski, Reinaldo Moraes) ia formando uma geração –e Sevcenko foi uma de suas estrelas.

O recado de Neymar

Por Folha
09/07/14 02:00

Disfarçando a tristeza com um sorriso simpático e hesitante, Neymar transmitiu num vídeo de pouco mais de um minuto sua mensagem à torcida, à comissão técnica e aos jogadores da seleção.

Foi um dos momentos mais tocantes desta Copa, e talvez diga um bocado sobre o nosso país.

Neymar começou se dirigindo, para usar suas palavras, à “rapaziada brasileira”. Soava um pouco antiquado, mas a escolha do termo tinha sua razão de ser.

Com a camiseta preta e o boné de pala virada para trás, Neymar correspondia mais uma vez ao visual adolescente que o caracteriza. Talvez tenha falado em “rapaziada” —incluindo nisso Felipão e outras autoridades—de modo a que todos, de alguma maneira, se igualassem no seu estado juvenil, o de quem sabe que há sempre um longo futuro pela frente.

Ao mesmo tempo, era um modo de se apresentar como alguém mais velho, mais maduro do que o público a que se dirigia. Sua tristeza não poderia tomar as cores de uma frustração infantil; era um adulto, afinal, quem se rendia à evidência médica e aos imprevistos do futebol.

Daí em diante, as palavras de Neymar se encaminharam para um terreno bastante íntimo, pessoal, personalista até.

“Só queria dizer”, começou ele, “que eu vou voltar o mais rápido possível, quando menos se esperar eu estou de volta…”

Agradeceu, naturalmente, as manifestações de carinho recebidas.

Em seguida, tomando fôlego, fez a declaração mais enfática: “O meu sonho ainda não acabou. Foi interrompido por uma jogada, mas ele continua. Tenho certeza que meus companheiros vão fazer de tudo para que eu possa realizar o meu sonho…”

Talvez seja exagero de minha parte, mas não imagino com facilidade um alemão, um francês, com esse tipo de discurso. O mais comum seria o craque estrangeiro minimizar o aspecto pessoal do problema, e partir logo para a conclamação patriótica.

Algo como “venceremos”, “a Pátria será mais forte”, “vive la France”, “Deutschland über alles”.

Mesmo num instante difícil como esse, é como se nossa cultura rejeitasse a mobilização ultranacionalista, a ordem unida de marchar avante. Neymar falou, sobretudo, de si mesmo —e, na hora de se referir à seleção, confiou na possibilidade de que esta realizasse o “seu” sonho.

Longe de mim querer fazer uma crítica ao que ele disse. Ao contrário, ele foi absolutamente natural e sincero. Sabia de sua importância para a seleção, e ao longo de toda uma carreira marcada pelo talento excepcional, seria muito hipócrita se dissesse que o coletivo é mais importante do que o indivíduo.

Para bem ou para mal, tendemos a concordar com ele. O Brasil não teria tantos craques de fama internacional (e tão poucos técnicos importantes atuando na Europa) se não fosse, antes de tudo, um país que confia menos na organização do conjunto do que na inspiração do momento.

Não entendo nada de futebol, mas desconfio que o grande desafio de quem dirige um time brasileiro é o de arrumar uma tática na qual os jogadores possam sobressair individualmente. As tentativas de submeter os craques a um esquema rigoroso provavelmente não são as que dão certo.

Há também, naturalmente, o fato de Neymar ser muito paparicado pela publicidade e pela imprensa. Isso fortalece o destaque dado, na mensagem, à sua própria pessoa. No início de sua trajetória, ele teve mesmo a fase “monstro”, em que algumas declarações arrogantes chegaram a assustar os que primeiro confiaram em seu talento.

Foi admirável, entretanto, a rapidez com que superou aquela fase. Paparicado ou não, Neymar estava jogando com muita garra nesta Copa, corria para baixo e para cima do campo, mostrava estar mais disposto do que qualquer um a ganhar o jogo.

Pode ser implicância minha, mas nada me irritava mais do que a atitude de outro grande craque, Ronaldinho Gaúcho, que costumava sorrir sempre que perdia um gol. Embaraço, vergonha, talvez. Mas, para mim, muitos craques internacionais pareciam descomprometidos quando vestiam a camisa da seleção brasileira.

Neymar, não. Era como se tivesse vestido a sua camisa, e a dos outros dez jogadores também. Lutou como se fosse o Brasil inteiro, embora sabendo que era único.

Imitando a famosa frase de Brecht, caberia dizer que é infeliz o povo que precisa de craques. Ou não?

Talvez seja precisamente uma coisa boa do Brasil, a de que o personalismo das relações, o improviso e a falta de rigor militar nos seus esquemas possam de quando em quando se transformar em garra, em vontade de vencer, em realizar um sonho coletivo, muitas vezes adiado.

P.S.: Férias. Volto dia 20 de agosto.

Um fordeco em 1970

Por Folha
02/07/14 02:00

Sem pensar no que estava fazendo, uma amiga da família vestiu uma saia verde e uma blusa amarela e saiu para trabalhar. Estávamos em 1970, plena Copa do Mundo.

Sua roupa causou comoção. Pessoas buzinavam enquanto ela andava na Paulista. Gritos, acenos e manifestações eufóricas fizeram com que ela passasse a maior vergonha de sua vida.

Hoje em dia, claro, nada haveria de anormal em usar as cores do Brasil. Anormal, de fato, seria pensar que em alguma época isso era diferente.

É que a memória engana muito. As surpresas seriam imensas se uma máquina do tempo nos levasse para 40 anos atrás.

Eu mesmo custo a acreditar, mas tenho certeza do que vi, numa aula de inglês em 1967 ou 1968. A classe reunia crianças e pré-adolescentes; seria algo como um curso “kids”, mas a palavra não se utilizava na época. Era o “Juvenil 2”, ou coisa parecida.

Em pleno Itaim, na rua das Fiandeiras, o quintal da escola se desfazia, sem muros, num matagal; não muito longe, na neblina da manhã, via-se um riacho limpo e luminoso como uma pintura.

Sonho ainda com isso. Pode ser que tenha imaginado a cena —a memória da infância, como se sabe, veste-se de algumas fantasias.

Mas não foi fantasia a entrada de uma menina, mais velha do que eu, bastante feiosa e meio gorducha, naquela sala matinal do Juvenil 2.

Um murmúrio correu pela classe. De calça jeans, ou melhor, rancheira, e com um casaco azul, que aliás era uma japona, ela não usava nada que chamasse a atenção.

Exceto pelo detalhe escandaloso: estava de tênis! Ou melhor, de Keds! Ou, melhor ainda, como dizia minha mãe: de chancas! Preto, cano alto, o horroroso Bamba progredia pela sala até a carteira da menina, que se sentou sorrindo, mas incomodada, à espera da aula e do futuro.

Três ou quatro anos depois, o futuro ainda não tinha chegado plenamente. Estávamos esperando as mães (raro o pai que aparecesse) na porta do colégio, em 1971 ou 1972, quando novo ato revolucionário se deu.

Quieta, dentro do carro, a mãe de um colega produzia o mesmo espanto da menina do inglês. Também ela usava tênis! Parece que jogava vôlei num clube ali perto. Mesmo assim, era inédito.

Tentando manter a discrição, todos passavam perto do carro estacionado para ver a motorista calçada como um menino. O mundo estava perdido.

Logo as mulheres passariam a jogar futebol, a televisão deixaria de ser um objeto feio demais para ficar na sala, e na casa dos colegas conheci um novo item do mobiliário. Tinha o nome estranhíssimo de “caixa de som”.

Poderia continuar nas reminiscências, mas o importante está em outro lugar. Dizem que nossa memória é seletiva, no sentido que esquecemos os fatos de que não queremos nos lembrar.

Mas a memória não é só seletiva desse modo. Ao contrário do que parece, o presente lança a sua sombra sobre o passado. Mudanças graduais nos costumes vão sendo absorvidas; tornam-se tão dadas, tão óbvias, que quando evocamos o passado colocamos em cena detalhes impossíveis de estar ali.

Um encanador italiano, muito velhinho, veio consertar alguma coisa em casa no exato dia em que a seleção de Pelé e Jairzinho marcava 4 a 1 contra a “Azzurra”. Para piorar as coisas (já disse que ele era bem velhinho), seu carro era um fordeco de 1930, verdadeiro calhambeque.

Não sei por que, minha mãe e eu pegamos uma carona no carro do encanador, que subiu alegre e irresponsavelmente uma rua que dava na Paulista. Ninguém atinava com o que estava acontecendo.

“É uma passeata!”, exclamou minha mãe, ainda presa às memórias de 68 ou 64. Claro que não; eram as comemorações do tri. A população paulistana, efusiva como tinha sido no caso da amiga de verde e amarelo, celebrou a passagem do calhambeque. Alguns montaram no estribo.

O encanador —chamava-se Olímpio— pediu delicadamente que o deixassem passar. “Per favore, eu voleva atravessare questa via, estavo com pressa…” O rosto de um torcedor desfigurou-se.

“O cara é italiano!” Minha mãe, cujo senso de humor era por vezes inadequado, resolveu responder: “no, io sono brasiliana…!” Quase viraram o calhambeque de cabeça para baixo.

Nada aconteceu, por sorte; o Ford seguiu adiante, atravessou a Paulista e desceu por uma ladeira interminável, até mergulhar no riacho prateado e nebuloso do tempo.

 

As previsões dos outros

Por Folha
25/06/14 02:00

No mercado financeiro, disse o jornal “Valor” desta segunda-feira (23), também correm apostas sobre a Copa do Mundo.

A consultoria KPMG, por exemplo, desenvolveu um modelo que dava à Espanha 19% de chances de ganhar o campeonato, quase ao lado do Brasil, com 21%.

O modelo matemático do Lloyd’s, empresa britânica que é craque no campo dos seguros, teve desempenho pior: confiava numa final entre Espanha e Alemanha.

Feito o balanço desta fase do Mundial, quem se mostra mais confiável é a velha e boa Goldman Sachs, dando 48,5% de chances ao Brasil, com Argentina e Alemanha bem atrás.

Seria injusto tripudiar sobre tais erros: pouca gente imaginava o total fiasco dos espanhóis.

Os modelos não foram construídos aleatoriamente. Como toda previsão, partem dos dados do passado. Uma vez que, nos últimos meses ou anos, a Espanha andava jogando bem, o razoável era supor que continuaria indo bem durante a Copa.

O razoável se torna absurdo, entretanto, se pensarmos nos raciocínios em que se fundamenta. A saber: quem vai bem sempre irá bem, o passado é prolongável no futuro, e nenhuma novidade jamais acontecerá.

O futuro, em suma, reproduzirá o passado; eis um belo conservadorismo, embora alguns possam chamá-lo de lições da experiência humana.

Exagero um pouco ao dizer isso. Claro que, se os economistas pensassem desse modo, eles não estariam apostando apenas na Copa de 2014, mas também na de 2026.

Além disso, eles não levam em conta só o desempenho recente das seleções. Consideram que o fato de ser sede da Copa aumenta as chances do Brasil, por exemplo —com o que concordo plenamente.

Outro fator seria a “tradição” dos competidores —o que também é razoável, na medida em que desacredita de uma final entre Coreia e Irã. Mas o que isso significa? Apenas que a previsão funciona se não houver nenhuma surpresa.

Haveria dois modos, acho, de melhorar os palpites desse tipo. O primeiro seria incluir no modelo outras variáveis, como a idade dos jogadores, o desempenho do técnico e assim por diante, até o computador aguentar.

Uma segunda forma de aperfeiçoar o sistema seria usá-lo apenas como ponto de partida. Identificados os favoritos, digamos Brasil e Espanha, caberia analisar em profundidade suas condições reais de jogo.

A isso se dedicam, naturalmente, os especialistas em futebol, menos confiantes no poder da estatística. Talvez se saiam ainda pior do que os economistas, entretanto.

Quanto às minhas próprias previsões, começo com a mais errada de todas. Previ que estaria longe do Brasil nesta Copa do Mundo; que não suportaria o oba-oba, a patriotada, a manipulação obscena dos sentimentos nacionais.

Cá estou, acompanhando não só os jogos do Brasil, mas de seus eventuais adversários. Digo em meu favor que, primeiro, o oba-oba tem sido muito menor do que das outras vezes. O bombardeio da “corrente pra frente” foi mitigado pelo movimento do “não vai ter Copa”, e entre os dois extremos chegamos a uma atitude aceitável de torcida com algum realismo.

Em segundo lugar, eu não queria saber de Copa do Mundo porque, desde a derrota por pênaltis do Brasil em 1986, irritava-me o misto de displicência e imaturidade de tantos jogadores brasileiros —mais interessados, a meu ver, em farras e Ferraris do que nas cores nacionais.

Eis que Neymar, justamente a estrela mais mimada da seleção, luta com todas as forças para dar o campeonato ao Brasil; os outros jogadores, com brilho variável, mostram garra equivalente.

De modo geral, os jogos estão muito mais emocionantes do que nas outras Copas, a média de gols tem sido alta, minha velha sensação de estar sendo iludido desaparece.

Meu método de prever o resultado dos jogos tem sido o mais aleatório possível. Acertei, pelo jeitão da coisa, o empate entre Brasil e México. Acertei Bélgica um, Rússia zero, com base na teoria de que a Bélgica é pequena demais para ir além de um gol.

Imaginei qual a melhor final, num sistema de cartas marcadas, para garantir uma vitória brasileira. Pois, convenhamos, o Brasil vai ter de ganhar de qualquer jeito.

Apostei então em Portugal —nada mais simbólico e estético do que isso, além de trazer pouco perigo a nosso país, com um embate entre Neymar e Cristiano Ronaldo para melhorar as coisas. Brasil e Portugal? Vê-se que não tenho muita moral para zombar do Lloyd’s e dos economistas do mercado financeiro.

Tempo de viradas

Por Folha
18/06/14 02:00

Acompanho pouco o futebol, mas pelo que me lembro a seleção brasileira tinha uma coisa bem irritante alguns anos atrás.

Ficava enrolando, enrolando, sem conseguir marcar nenhum gol quase até o final do primeiro tempo. Claro que acabava dando chance para o adversário. Perdendo de um a zero, o Brasil se descontrolava; já não sabia mais o que fazer em campo.

Talvez se sentisse tão predestinado à vitória que nem se preocupava em atacar. Levando um gol, caía na realidade. Mas a realidade não surgia como algo a ser enfrentado; tratava-se de um labirinto, uma armação, um pesadelo. Tudo corria como se a realidade fosse uma coisa irreal.

Escrevo sem saber o resultado do jogo Brasil e México. Mas nesta Copa do Mundo o comportamento geral (não só dos brasileiros) parece bem diverso. Está predominando o espírito da “virada”: depois de um gol contra, a seleção venceu a Croácia.

De virada, a Costa Rica superou o Uruguai, a Suíça fez o mesmo contra o Equador, e a Costa do Marfim, o Japão. Os jogos melhoram muito.

Fora dos campos de futebol, talvez esteja acontecendo algo parecido. Veja-se a “virada” produzida nos meios de comunicação depois dos xingamentos a Dilma Rousseff.

Os candidatos de oposição enxergaram, inicialmente, uma oportunidade para se dizer afinados com o “sentimento popular”. Nas redes sociais, entretanto, o jogo virou com rapidez. Tornou-se reprovável, quase hediondo, xingar a presidente. Aécio e Eduardo Campos recuaram.

Coisa semelhante ocorreu durante as manifestações de junho. O jogo das opiniões foi movimentadíssimo. No começo, tudo se inscrevia na rotina dos pequenos protestos que causam grande congestionamento. A truculência da PM foi o gol contra que virou a partida em favor dos manifestantes. A radicalização dos black blocs decidiu o jogo.

Boa parte dessa velocidade se deve às redes sociais. Acelera-se o fluxo das opiniões “públicas” —no sentido de que não se confinam a um grupo de ouvintes a quem conhecemos pessoalmente, mas se espalham para indivíduos que nunca vimos na vida.

Não é impossível que, com isso, os habitantes do velho universo público —comentaristas de TV, articulistas de jornal, candidatos a cargos eletivos— sejam pegos no contrapé.

O caso de Arnaldo Jabor, em junho passado, foi o mais notório: começou chamando os manifestantes de playboys, burguesinhos ou coisa parecida, e teve de voltar atrás.

Não é que não tenha direito a mudar de ideia; os próprios fatos, aliás, mudavam de figura. O problema, para continuarmos no mundo futebolístico, é que quando o ataque desembesta tudo fica muito atrapalhado na hora de recuar.

Ao mesmo tempo, a multiplicação dos “opinadores” nas redes sociais impõe uma concorrência brutal. Como todos competem pela atenção, pode sair ganhando quem fala mais alto. Os comentários crescem em extremismo e estridência.

Há o risco de ter de recuar mais tarde. Não chega a ser dos mais sérios, porque, como há muita velocidade e quantidade de opiniões, ninguém se lembra direito nem do que leu nem do que escreveu.

Mas aí ocorre outro paradoxo. Como a internet funciona por ondas, um velho boato ou uma antiquíssima besteira renascem, meses depois de terem sido arquivadas. A mentira pode ter pernas curtas, mas volta sempre.
Há ao mesmo tempo uma hipertrofia da memória —tudo pode ser lembrado— e uma atrofia da memória, porque tudo será esquecido. Na política, Fulano denuncia um caso de corrupção, que equivale ao outro em que ele próprio estava envolvido.

Claro que isso sempre aconteceu no Brasil, mas a internet contribui como nunca para eliminar as distâncias de espaço e tempo.

Parecem paquidérmicos, em contraste, os esforços dos marqueteiros tradicionais para construir as campanhas de seus candidatos na propaganda do rádio e da TV. O “micromarketing” de twitters e postagens talvez não seja capaz de alterar as grandes tendências do eleitorado neste ano, mas não deve ser desprezado.

Uma última metáfora esportiva: como num jogo de basquete, os minutos finais contam mais que o jogo inteiro. A política vai ficando instantânea —e me arrisco a dizer que o futebol também. Todos correm muito, o gol contra de cinco minutos atrás já foi esquecido, e cada jogo parece constituir-se de noventa minutos de uma decisão por pênaltis. Só não sei se nas eleições há tantos craques assim.

Vai ter de engolir

Por Folha
11/06/14 02:00

Peguei um voo para Brasília, na semana passada. O atraso de quase uma hora estava, digamos, dentro do normal.

Nem tão normal era o movimento de uma equipe de TV perto do avião. A fuselagem era o motivo: tinham-na pintado de verde e amarelo, e com um imenso logotipo ainda por cima. Toda a “aeronave” era um veículo de propaganda do guaraná Antarctica.

Ótimo. Um grupo de passageiros, não sei se pagos para animar a coisa, entusiasmou-se e tirou seus “selfies”, enquanto eu desconfiava que o atraso no embarque tinha algo a ver com isso.

Já na escadinha, topei com o aviso insultante.

Ao entrar neste avião, dizia o cartaz, você está concordando em ter sua imagem divulgada na próxima campanha publicitária do guaraná Antarctica.

Como assim? E se eu não concordasse? Deveria descer da escadinha, requerer minha bagagem de volta, fazer novamente o check-in e chegar atrasadíssimo ao meu compromisso?

Não havia alternativa, exceto a de entrar, com cara de poucos amigos, no elenco de extras que faria parte do anúncio a ser filmado.

Quanto custa alugar um avião e remunerar uma centena de falsos passageiros? A economia seria feita com a minha colaboração, imposta sem nenhuma cerimônia.

No corredor, profissionais já se espremiam com câmeras e aqueles microfones que parecem os chapéus de pelo de urso da guarda real britânica.

Menos mal: avisaram que, se alguém discordasse da filmagem, poderia avisar a aeromoça. Uma foto de mim teria de ser tirada, entretanto, para que na hora da edição cortassem o meu rosto.

Achei que seria mais fácil passar o resto da viagem com o dedo médio em riste, obtendo imediata supressão da face do meu descontentamento. Mas aí seria excesso de mau humor, e não fiz nada. Ah, terá pensado alguém mais oportunista do que eu, quem sabe depois dá para entrar com um processo…

Mas àquela altura só havia felizes no avião. É que o aviso de atar cintos tinha sido dado por uma figura simpaticíssima, o craque Cafu, da seleção de 2002. Vestido de comissário de bordo, foi ele quem serviu o “lanche especial” e, claro, o guaraná gratuito aos passageiros.

Enquanto isso, uma cantora de sucesso declarava seu amor a todos nós e ao Brasil, obtendo vivas e o-la-lás de todo mundo.

Eu estava em minoria, é claro. Isso nem sempre é um problema. Aprendi, contudo, como pode ser difícil o simples ato da resistência silenciosa. Dada a felicidade geral, vem logo a sensação de que o errado sou eu. Todos, de Cafu ao passageiro do meu lado, entregavam-se de boa vontade ao que acontecia.

A folia não durou mais que uma hora e meia. Eu não tinha de fazer nada, a não ser ficar em silêncio, sem olhar para os lados. Já era o suficiente para me sentir culpado: eu, o ranzinza; eu, o do contra; eu, o que ainda preserva crenças esquerdistas e não aceita entrar no jogo das agências publicitárias e das celebridades que mal conheço.

Imagine então alguém que, sozinho numa multidão, se recusasse a levantar o braço na saudação nazista. Ato minúsculo, e além disso inútil, numa situação daquelas. Percebi que talvez eu não conseguisse; a constatação me deu mais força, em todo caso, para manter a cara fechada naquele festival de brasilidade forçada.

Muito menos do que a questão dos gastos na construção de estádios e outras bobagens, acho que vem daí a minha antipatia com a “Copa de todas as Copas”. O que me incomoda é a sensação, presente nos governantes e empresas interessadas no evento, de que basta promover um evento exaustivamente que todo mundo vai ter de engolir.

As velhas manipulações da era Médici, com “o país que vai pra frente”, o “ritmo de Brasil grande” e o “ame-o ou deixe-o”, não passaram por uma renovação que lhes desse grande acréscimo de sutileza.

O slogan do “não vai ter Copa” parece, entretanto, uma recusa ao oba-oba programado; a recusa se mistura com outro sentimento, o medo de repetir-se o “maracanazo” de 1950.

A recusa se torna mais forte, sem dúvida, quando a propaganda deixa de ter origem puramente oficial, para se privatizar em grande escala. Um avião, de empresa privada, é privatizado por uma marca de refrigerantes, e o que houver de coletivo entre os passageiros se põe, gratuitamente, a seu serviço.

Quando vejo os que ainda dizem “não vai ter Copa”, não me animo muito. Mas pelo menos sinto que não estou sozinho.

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