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31/05/12 10:45Publicações da CosacNaify, como “A Cultura do Romance” e “Piero della Francesca” com 50% de desconto, na Opera Prima.
Publicações da CosacNaify, como “A Cultura do Romance” e “Piero della Francesca” com 50% de desconto, na Opera Prima.
No preâmbulo burkeano de seu livro (ver post anterior), Kirk identifica um breve elenco das principais teses conservadoras, que cabe reproduzir aqui, com alguns comentários.
Qualquer conservador bem-informado reluta em condensar ideias profundas e intrincadas em algumas frases escassas e pretensiosas; ele prefere deixar essa técnica para o entusiasmo dos radicais.
(Por esse critério, até o “Credo” católico estaria suspeito de radicalismo… mas vamos em frente).
Como premissa de trabalho, no entanto, pode-se observar aqui que a essência do conservadorismo social é a preservação das antigas tradições morais da humanidade. Os conservadores respeitam a sabedoria de seus ancestrais (essa frase foi de Strafford e de Hooker, antes que Burke a iluminasse); eles desconfiam de alterações indiscriminadas.
Dois pontos merecem crítica aqui. Começo pela última frase, típica de um procedimento que se repete bastante em Kirk. A saber, o da adjetivação que salva o argumento. “Eles desconfiam de alterações indiscriminadas”. Certo –quem iria discordar disso? Alterações desastrosas, alterações estúpidas, não há quem não seja contra. Alterações corretas, alterações judiciosas, não há quem não seja a favor. Simplesmente podemos dizer que o “progressista” considera judiciosas certas alterações –como a permissão para o casamento gay, por exemplo—que o conservador não considera bem-vindas.
E com isso entramos na primeira parte do parágrafo de Kirk: “os conservadores respeitam a sabedoria de seus ancestrais. Que sabedoria? A que durante milênios considerou normal a instituição da escravidão? Ou a sabedoria que, durante milênios, também considerou abominável o assassinato? O passado tem sabedorias para todos os gostos, mesmo para o gosto progressista…
Continuo mais tarde.
Já falei em post anterior a respeito do livro de Russell Kirk, “A Mentalidade Conservadora”, a ser lançado pela É Realizações no Brasil. É uma longa e muito bem escrita exposição do pensamento conservador americano e britânico, a partir de Burke, sobre quem versa o primeiro capítulo.
Vou comentando, aos poucos, as ideias do autor.
Como se sabe, Burke fez história na teoria política com sua crítica à Revolução Francesa. Desde que você não seja um revolucionário radical, com certeza terá muito a concordar com a ideia de que mudanças graduais, com o máximo de negociação e consenso, são melhores do que a tentativa violenta de romper com o sistema social.
Há uma longa tradição de esquerda, ou “progressista”, que abomina o tipo de transformação violenta (e no fim ineficaz) proposta por revolucionários ao estilo bolchevique. O próprio Engels, no fim da vida, se alinhava nessa perspectiva “social-democrata”. Eduard Bernstein, nos “Pressupostos do Socialismo”, escrito nos últimos anos do século 19, lançou de forma convincente as bases de uma crítica à revolução. E o derramamento de sangue dos jacobinos foi, sem dúvida, mais um retrocesso para a “causa” do que uma forma de acelerá-la.
Se Burke estava certo com relação a isso, o problema é que a crítica à revolução não esgota todo o seu pensamento.
Edmund Burke, diz Russell Kirk, não se envergonhava de reconhecer o apoio que recebia de homens humildes cujas únicas certezas eram o preconceito e a prescrição; pois, com afeição, eles os comparava aos rebanhos sob os carvalhos ingleses, surdos aos insetos da renovação radical.(p.27)
Preconceito? Prescrição? Os termos, empregados de forma positiva no pensamento de Burke, talvez precisem de esclarecimento mais adiante.
Por enquanto, estão apenas citados de passagem nas primeiras páginas de Kirk, que em seguida, com leveza, traça um quadro evocativo da casa natal de Burke, em Dublin, e discute a filiação intelectual do autor. Como eu disse, “A Mentalidade Conservadora” é um livro muito agradável de ler, escrito sem raiva nem obscuridade.
O jardim da casa da artista Debora Muszkat, perto da Cidade Universitária, transformou-se numa espécie de manifesto em favor da reciclagem. Objetos de vidro, destinados ao lixo, são refeitos e recompostos para formar um jardim de vidro.
Fui acompanhando (e dando os palpites que podia) nessa obra, que está praticamente pronta.
O principal é uma ponte, feita de ferro, atravessando a piscina da casa. É uma estrutura bem alta, “durona”, que lembra a estética industrial. Em torno da ponte, a artista organizou guirlandas de vidro colorido, que se refletem na água da piscina e nos espelhos –que há por toda parte.
O visitante pode andar em cima da ponte, que funciona como um balanço, vendo os refexos mudarem o tempo todo.
Dois aspectos da obra, ainda em construção:
O artista alemão Simon Schubert produz imagens arquitetônicas com papel dobrado. Dois exemplos.
Sim, é só papel dobrado.
Mais imagens e informações no site Dezeen.
Algumas recentes contribuições do cronista para o jornal “Agora”.
FREADA BRUSCA
Atraso. Demora. Confusão.
É o trânsito em São Paulo.
Luís Nelson respirou fundo.
–Com a greve do metrô então…
Ele saía da Estação Trianon.
–Melhor voltar para o escritório… dar um tempo lá mesmo.
O rapaz tinha um futuro brilhante no Banco Fundinvest.
No elevador, ele reconheceu uma antiga colega de faculdade.
–Mariane. Também trabalha aqui?
O sorriso da executiva foi dos mais cativantes.
–Então… estava indo para casa, mas…
–A greve do metrô…
–Muita agitação.
–E tudo parado… hi hi.
As sombras da noite cresciam sobre o carpete do escritório.
O barulho intermitente do fax não abafou os gemidos de amor.
–Ai, Luís Nelson… dá aquela paradinha…
O amor é como um vagão de metrô.
Depois que você entra, recomeça o vai e vem.
A QUESTÃO DO AMBIENTE
Rios. Regatos. Florestas.
É preciso ajudar a natureza do Brasil.
Fabíola era ecologista.
Andava inquieto o coração da jovem estudante.
–A Dilma tem que vetar.
Uma nova lei preocupa os ambientalistas.
–Vamos fazer um protesto na Paulista.
Na faculdade, os amigos concordavam.
Na hora de fazer os cartazes, veio a dúvida.
–É com vírgula?
–Com vírgula o quê?
–O Veta Dilma.
–É veta, vírgula, Dilma.
–Ridículo. Não pode usar vírgula quando o verbo… hã…
–Veta é verbo?
O professor de Redação passava pelo local.
–Mas é “veta” ou “vete”? Afinal, a presidente…
–Presidenta?
Fabíola deu o basta.
–Desenha só uma árvore e vamos em frente.
Dúvidas de português são como nossas florestas.
Para algumas pessoas, a solução é cortar logo pela raiz.
A COR DE UM CORAÇÃO
Justiça. Vingança. Poder.
Os super-heróis estão de volta.
Num único filme, Hulk, Thor e o Homem de Ferro lutam contra o mal.
Heitor não tinha a menor paciência.
–Patacoada.
Ele preferia ver o noticiário político.
–Esses sim que mereciam uma martelada.
Os filhos apareceram com um DVD.
–Vem assistir, papai. O Capitão América.
–Espera. Olha esse safado.
Um conhecido senador dava explicações.
–Nunca fui amigo desse bicheiro…
–Papai. Também tem o Thor.
O rosto de Heitor estava estranhamente inchado.
A fúria. A revolta. A indignação.
A bandeja de prata voou em direção à TV de plasma.
–Olha aí o meu escudo. Na fuça desse animal.
Os filhos se entusiasmaram. Pedem mais destruição.
Em cada coração verde e amarelo, existe um Hulk adormecido.
MOMENTO DA VERDADE
Posses. Família. Tradição.
É a velha São Paulo.
A família Motta do Prado estava mobilizada.
–Finalmente irão julgar esses canalhas.
O julgamento do mensalão se aproxima.
No jantar, o dr. José Ignácio resumia o caso.
–Esse Adhemar de Barros é uma desgraça.
A filha mais velha de José Ignácio era advogada.
–É a vez do STJ… ou será do TSE?
Uma velhinha meio surda estava sentada na outra ponta.
–Eu gosto do Luuula… eu gosto do Luuuula…
O boicote. A sabotagem. A provocação.
Num ato de raiva, o dr. José Ignácio suspendeu a mesada da prima.
–Arranja um mensalão agora, Irmantininha.
Mas logo se arrependeu.
É que Irmantininha ameaça dedar toda a família. Sonegação e desmatamento.
Opiniões são livres. Mas a boca fechada tem também o seu valor.
Perguntei a meus anfitriões na escola municipal Henrique Felipe da Costa, no Itaim Paulista, quais os maiores problemas que enfrentavam.
Em primeiro lugar, esses problemas estavam fora dos muros da escola: o ambiente familiar, as dificuldades externas tinham efeito direto sobre o comportamento e o desempenho dos alunos.
E se aumentassem o número de horas passadas dentro da escola? Não é pouco tempo para o aprendizado?
Sim, mas eles mal aguentam ficar o tempo regulamentar. A escola teria de oferecer atividades diferentes –deixá-los sentados, com pouco o que fazer, não seria praticável.
Outra questão difícil é a da inclusão. Em tese, seria uma boa coisa fazer os alunos com dificuldades especiais conviverem com os alunos normais. Mas os professores não têm treinamento para isso; e como cuidar ao mesmo tempo de uma classe com quarenta alunos e de um aluno que, aos doze anos, ainda não consegue nem mesmo aprender todas as letras do alfabeto?
Perguntei também sobre a progressão continuada. De fato, disse o professor Daniel, as pesquisas indicam que dá melhor resultado a prática de evitar reprovar os alunos no final do ano, ajudando-os com aulas especiais.
Só que as aulas especiais nem sempre são como deveriam.
E a indisciplina não aumenta? Como fazer um aluno estudar se, sem estudo, ele se dá bem?
Pois é, esse é o maior problema, respondeu o professor.
Continuei dando a minha opinião, e aparentemente meu anfitriões concordaram. Realmente, não vejo como essa aprovação automática pode funcionar. Sei por mim mesmo: eu não faria absolutamente nada se não tivesse algum prêmio por estudar,e alguma ameaça por não estudar. Isso é humano, afinal.
E, mesmo na hipótese de que a progressão continuada pode ser útil em muitos casos, como fazer disso uma regra universal? Por que não facultar a cada professor, caso a caso, essa decisão?
Tira-se do professor sua maior arma, seu maior poder, afinal. Como será obedecido e respeitado numa situação em que é obrigado a aprovar todo mundo?
Curioso que, no caso dos dois professores, uma das vantagens do ensino municipal é o fato de que não precisam de condução!
Eles moram lá mesmo, no Itaim Paulista, a pouca distância da escola.
O professor Daniel nasceu no bairro, e trabalha na mesma escola em que estudou quando criança.
Isso é uma diferença importante, e, imagino, recente.
Bem ou mal, a melhoria econômica nessas regiões fez com que moradores nascidos lá mesmo, experimentados na realidade local, tenham ao mesmo tempo nível universitário, fazendo pós-graduação.
Os professores mais jovens parecem pertencer a uma classe social mais elevada do que a geração anterior.
Há dificuldades impensadas, contudo, para quem mora no Itaim Paulista. Meus anfitriões gostam de alugar DVDs de arte; difícil fazer isso na região. Falei dos serviços que contratei da Netmovies, que entrega e pega os DVDs em casa, sem prazo para devolução.
“Pois é, tentamos”. “Mas a empresa não atende no nosso endereço; é longe demais para eles”.
Minha conclusão, depois de tudo o que vi, não pode deixar de ser otimista. Uma hora eles chegam lá.
Mais um golpe contra o meu preconceito. No final do encontro que tive com os alunos da EMEF Henrique Felipe da Costa, no Itaim Paulista, houve uma rápida sessão de autógrafos.
Se você pensa que na periferia os pré-adolescentes têm nomes do tipo Jihanny ou Toffson, está muito enganado. O que predominava eram as Vitórias, as Letícias, as Camilas.
Mesmo os nomes de origem estrangeira vinham na grafia correta: Hannah, como a Arendt, e Johnny, como o Weissmüller.
Perguntei à professora Márcia, que me convidara, se era essa a tendência geral.
Bem, ela respondeu, como na sala de projeções (com TV de tela plana) onde estávamos não caberiam as quatro classes da 6ª. Série, é verdade que uma seleção foi feita previamente; estavam ali os alunos mais interessados.
Entre eles, entretanto, cabe notar que estava o filho de um traficante da região, assassinado não fazia muito tempo.
De modo geral, os alunos melhores eram aqueles que vinham de famílias bem estruturadas.
Perguntei se seriam evangélicos.
Mais um preconceito caía: “há evangélicos terríveis entre os alunos”, ela me respondeu. “Talvez o excesso de disciplina em casa seja descontado aqui.”
A escola municipal de ensino fundamental Henrique Felipe da Costa, vulgo “Henricão”, é um edifício largo e quadrado, ocupando quase totalmente o terreno, de modo que fora de uma quadra não pude ver nenhuma área ao ar livre, com terra ou grama onde os alunos pudessem passar o recreio.
Talvez para compensar isso, todo o interior da escola está pintado de um verde enjoativo, que talvez tenha sido moda nos pronto-socorros da Ucrânia aí por 1980.
Dito isso, tudo estava limpíssimo, em ordem, sem a menor tentativa de pichação.
Fui subindo a escada para o primeiro andar, onde as salas de aula se organizam em volta de um largo espaço interno. Por uma porta entreaberta, uma ou duas crianças me reconheceram: “É o Marcelo Coelho!”
Foi um pouco menos, mas só um pouco menos, do que se Michael Jackson estivesse entrando na escola. “Êêêê!”
Conto isso, claro, porque fiquei contente, mas também porque não há sentido nessas visitas se a escola não prepara um pouco os alunos. Estive numa espécie de turnê pelo interior de São Paulo, visitando algumas escolas estaduais, mas o resultado foi bem frustrante: ninguém tinha lido meus contos infantis, e a sensação de perda de tempo e obrigação foi mútua.
Desta vez, foi diferente. Uma aluna de onze anos já tinha lido “Minhas Férias”, e foi aí que a ideia do convite começou. Falei um pouco na classe, e vieram as perguntas. Havia uma aluna que está querendo escrever uma peça de teatro, e pedia minha orientação. Outra já leu todos os volumes de Harry Potter.
Ou seja: como em qualquer escola particular, há alunos que leem. A proporção, não sei. O acesso aos livros, claro, deve ser mais difícil. Mas nessa escola eles têm “aula de biblioteca”: visitei o lugar, modesto mas razoável. Sei também que, na escola que eu frequentei nessa idade, também o número de leitores era minoria.
YouTube DirektNo “Hora da Coruja”< com Paulo Ghirardelli
Com uma hora de duração, sempre é melhor para um entrevistado sem prática –porque para mim é difícil falar de modo conciso e contundente.
O assunto foi, principalmente, jornalismo cultural.